Pandemia evidencia preconceito com idosos

A chamada “velhofobia” tem preocupado especialistas

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, o grupo dos idosos é que mais tem sido afetado. Consequentemente, além da vulnerabilidade, eles ainda enfrentam os preconceitos praticados pela população em geral. Em entrevista à BBC News Brasil, a antropóloga e escritora Mirian Goldenberg, professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) explicou sobre a atual situação.

Foto: Anselmo Cunha

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os idosos são mais suscetíveis à doenças contagiosas, não só à Covid-19, porque costumam ter um sistema imunológico deficiente, com menos anticorpos. Além disso, possuem pulmões e mucosas mais frágeis, e vão aos hospitais com mais frequência, ficando mais expostos aos vírus e bactérias.

Há tempos os idosos sofrem com a discriminação da sociedade, muitas pessoas têm discursos que os consideram um peso. De acordo com Mirian Goldenberg, a situação ficou pior com o surgimento da Covid-19, agora políticos, empresários e o próprio presidente da República já atacaram os mais idosos em declarações públicas.

O conceito de velhofobia é utilizado tanto para esses preconceitos, tanto para o medo de envelhecer. Segundo uma pesquisa do Instituto Qualibest, 92% dos brasileiros têm esse receio. “Me refiro ao termo 'velhofobia' para descrever não só os preconceitos, estigmas e tabus associados ao envelhecimento, mas também o pânico de envelhecer que, no Brasil, é muito mais forte do que na Europa, por exemplo”, explica Goldenberg. 

No Brasil, o medo de envelhecer ultrapassa a esfera física, mas tem um aspecto simbólico. A escritora evidencia que as pessoas têm medo de se tornarem descartáveis, que podem morrer para salvar a economia, por exemplo. 

As brincadeiras que envolvem os idosos nas redes sociais, por exemplo, também são uma forma de velhofobia. Todos os dias são publicados diversos memes (publicações com piada que viralizam pela internet) que colocam os idosos como teimosos e desobedientes. Gondenberg considera que isso é uma forma de zombar deles.

Infelizmente a pandemia tirou o direito deles de ir e vir e, por enquanto, não tem previsão de quando poderão ter vida normal novamente. “Há cinco anos, venho acompanhando o dia a dia de homens e mulheres de 90 a 103 anos. Todos lúcidos, ativos e saudáveis. Eles estão desesperados. Têm dificuldade para compreender uma realidade que não fazia parte da vida deles antes do isolamento”, expôs a antropóloga.

Contudo, Goldenberg propõe soluções para amenizar essas questões e ajudar os idosos a ultrapassarem esse momento. O primeiro passo é escutá-los, não é o momento de dar ordens, mas sim estar ao lado deles. “Ligue para eles, faça atividades junto com eles. Faça com que eles se sintam vivos, úteis, amados, cuidados”, propõe. Além dos cuidados com a saúde física, os idosos precisam de um apoio emocional.

“O amor que eles têm pela vida. Tudo o que eles fizeram e ainda fazem para se manter saudáveis e lúcidos faz com que a vida deles tenha mais valor”, é essa a lição que Goldenberg deixa depois de tantos anos estudando esse grupo de pessoas. É hora de cuidar de quem se ama e ultrapassar tudo isso com amor e respeito. 

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